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Soube hoje que Zdenek Hampl faleceu dia 5 de março. Quero transmitir aqui meu profundo agradecimento pela vida e obra dele, e o amor pela dança que ele transmitiu para tantos.
(Diário do Pernambuco, 6/3)
"Ontem, às 11h, o corpo do coreógrafo tcheco Zdenek Hampl (60 anos), radicado no Recife desde os anos 80, foi sepultado no cemitério de Santo Amaro. Ele, que é considerado por profissionais da dança um dos coreógrafos mais inovadores atuantes no cenário local nas décadas de 80 e 90, faleceu devido às complicações de um câncer, no último domingo, por volta das 19h30. A mulher de Zdenek, Márcia Rocha, diz que a ficha ainda não caiu, mas que o pensamento positivo e o alto astral, característicos de Hampl, serão uma boa maneira de aliviar a sua dor. Ela ainda pensa com carinho em um projeto especial. “Pode ser que se concretize a idéia de dar continuidade ao livro que ele estava escrevendo, sobre pensamentos e a dança”, comenta a esposa e bailarina, que o conheceu nos anos 90, num espetáculo de dança que ele também coreografou.
Nascido na antiga Tchecoslováquia, em 1946, estudou na Universidade de Dança de Praga durante o regime comunista, tendo sido formado a partir de programas russos de ensino. Foi solista do Teatro Nacional de Praga e da Lanterna Mágica de Praga. No início dos anos 70, Zdenek abandonou essa última companhia de dança, durante uma turnê pela América Latina, para fixar-se no Brasil.
A partir de sua chegada ao Rio de Janeiro, em 1972, Zdenek participou da realização de trabalhos historicamente significativos, a exemplo da montagem proibida da peça Calabar, de Chico Buarque de Holanda e Ruy Guerra; Casa de Bonecas, com Tônia Carreiro e Cecil Thiré; e Por Que Você Não Vai Fazer Chá? com Louise Cardoso, Sura Berditchevski e Paulo Reis, no Teatro Tablado, em 1972. Entre várias outras atuações no universo teatral, dirigiu Diário de um Louco, de Gogol, com Ivan Setta, e coreografou História de um Soldado, de Stravinsk, com regência do maestro John Neschling.
No âmbito da dança, Zdenek integrou o Corpo de Balé da Rede Globo e coreografou para programas como Sítio do Pica-Pau Amarelo e Fantástico, além de trabalhos especiais como Dois Pontos, com Tânia Alves e Jonas Bloch. No cinema, foi assistente de direção de Diamante, de Rose Lacreta; e em Diacuí, de Ivan Kudrna, atuou como protagonista. Os filmes Rock Estrela e Hans Staden ampliaram suas experiências cinematográficas. Além disso, montou grupo e espetáculo de sapateado, e participou da fundação da companhia de dança Vacilou Dançou, ainda hoje em atividade no Rio.
No Recife, cidade onde se radicou desde o início dos anos oitenta, Zdenek coreografou e dirigiu trabalhos de reconhecido valor, como Capataz de Salema (1982), com músicas de Antônio Madureira; É o Dia (1983), espetáculo em homenagem a Dom Hélder Câmara; Piazzolada (1983), sobre Astor Piazzola; Peles da Lua (1986); Festa de Pedra (1988); e Lua Cambará (1991); entre outros. A criação de espetáculos como A Toda Prova (1984), que abordava o universo dos super-heróis, a participação na uma iniciativa inédita naformação da Associação de Dança do Recife (1984) cidade, que tinha na cooperativa sua principal forma de produção - assim como a introdução de aulas de dança contemporânea na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), nos idos de 1983, são alguns tópicos representativos da diversidade com que Zdenek inseminou e disseminou aspectos inovadores nas artes cênicas da cidade.


(Festival de dança do Recife, julho de 2004. Zdenek, Steven Harper e Adriana Salomão)