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Mestra de muitos flaps
Ao escrever essa matéria sobre a historia do sapateado no Brasil, lembro que palavras como profissionalismo e dedicação são comuns a poucas pessoas.
Uma delas é Pat Thibodeaux. Sua paixão pelo sapateado ultrapassou fronteiras e conquistou milhares de pés.
Nascida em Nova Orleans, no Sul dos Estados Unidos, formou-se em Enfermagem, logo depois, em Dança. Casou-se, veio para o Brasil e teve três filhos.
Em 1970, a diretora do colégio onde eles estudavam convidou-a a dar aulas de sapateado para os alunos. A primeira apresentação de fim de ano foi uma verdadeira vitrine e, no ano seguinte, as turmas ficaram lotadas. Elas foram crescendo e multiplicando-se a cada ano. Até que Pat foi convidada a levar sua turma mais adiantada ao programa Moacyr Franco Show, da Rede Globo, num especial de reveillon - na época, um dos programas de maior audiência da televisão brasileira. Com um cenário especialmente criado e produção requintada, foi um sucesso em cadeia nacional. A partir daí, o interesse pelo sapateado cresceu e a procura nas academias aumentou sensivelmente. Pat passou a dar aulas em muitos lugares e também, a donos de academias que, aos poucos, começaram a ensinar seus alunos.
No inicio dos anos 80, ela abriu sua própria escola, a UNIC, onde sua família trabalhava unida. Alem do sapateado, oferecia aulas de varias modalidades de dança, promovia intercâmbios, congressos internacionais e criou um grupo de sapateado, que acredito, até hoje, nunca ter ouvido igual, com som tão perfeito, aqui no Brasil.
Depois de dez anos, fechou a escola e foi morar, por um período, nos Estados Unidos. Pat recentemente faleceu, deixando imensa saudade entre todos nós.
Não pretendo aqui traçar o seu currículo. A intenção é mostrar, de forma breve, a belíssima trajetória de seu trabalho e contar que milhares de pés, mesmo sem saber, sapateiam hoje inspirados pela poesia de suas aulas e pelas batidas de seu coração.
Escrevo estas linhas com muita firmeza pois vivenciei pessoalmente todas elas. Fui aluna da sua primeira turma no colégio, onde igualmente estudei. Stella Antunes também - conhecemos-nos desde esta época.
Pat Thibodeaux, uma profissional de enorme importância na historia do sapateado no Brasil.
por Amalia Machado
Artigo escrito para o jornal “Ao Pé da Letra”, em maio de 1995
Soube hoje que Zdenek Hampl faleceu dia 5 de março. Quero transmitir aqui meu profundo agradecimento pela vida e obra dele, e o amor pela dança que ele transmitiu para tantos.
(Diário do Pernambuco, 6/3)
"Ontem, às 11h, o corpo do coreógrafo tcheco Zdenek Hampl (60 anos), radicado no Recife desde os anos 80, foi sepultado no cemitério de Santo Amaro. Ele, que é considerado por profissionais da dança um dos coreógrafos mais inovadores atuantes no cenário local nas décadas de 80 e 90, faleceu devido às complicações de um câncer, no último domingo, por volta das 19h30. A mulher de Zdenek, Márcia Rocha, diz que a ficha ainda não caiu, mas que o pensamento positivo e o alto astral, característicos de Hampl, serão uma boa maneira de aliviar a sua dor. Ela ainda pensa com carinho em um projeto especial. “Pode ser que se concretize a idéia de dar continuidade ao livro que ele estava escrevendo, sobre pensamentos e a dança”, comenta a esposa e bailarina, que o conheceu nos anos 90, num espetáculo de dança que ele também coreografou.
Nascido na antiga Tchecoslováquia, em 1946, estudou na Universidade de Dança de Praga durante o regime comunista, tendo sido formado a partir de programas russos de ensino. Foi solista do Teatro Nacional de Praga e da Lanterna Mágica de Praga. No início dos anos 70, Zdenek abandonou essa última companhia de dança, durante uma turnê pela América Latina, para fixar-se no Brasil.
A partir de sua chegada ao Rio de Janeiro, em 1972, Zdenek participou da realização de trabalhos historicamente significativos, a exemplo da montagem proibida da peça Calabar, de Chico Buarque de Holanda e Ruy Guerra; Casa de Bonecas, com Tônia Carreiro e Cecil Thiré; e Por Que Você Não Vai Fazer Chá? com Louise Cardoso, Sura Berditchevski e Paulo Reis, no Teatro Tablado, em 1972. Entre várias outras atuações no universo teatral, dirigiu Diário de um Louco, de Gogol, com Ivan Setta, e coreografou História de um Soldado, de Stravinsk, com regência do maestro John Neschling.
No âmbito da dança, Zdenek integrou o Corpo de Balé da Rede Globo e coreografou para programas como Sítio do Pica-Pau Amarelo e Fantástico, além de trabalhos especiais como Dois Pontos, com Tânia Alves e Jonas Bloch. No cinema, foi assistente de direção de Diamante, de Rose Lacreta; e em Diacuí, de Ivan Kudrna, atuou como protagonista. Os filmes Rock Estrela e Hans Staden ampliaram suas experiências cinematográficas. Além disso, montou grupo e espetáculo de sapateado, e participou da fundação da companhia de dança Vacilou Dançou, ainda hoje em atividade no Rio.
No Recife, cidade onde se radicou desde o início dos anos oitenta, Zdenek coreografou e dirigiu trabalhos de reconhecido valor, como Capataz de Salema (1982), com músicas de Antônio Madureira; É o Dia (1983), espetáculo em homenagem a Dom Hélder Câmara; Piazzolada (1983), sobre Astor Piazzola; Peles da Lua (1986); Festa de Pedra (1988); e Lua Cambará (1991); entre outros. A criação de espetáculos como A Toda Prova (1984), que abordava o universo dos super-heróis, a participação na uma iniciativa inédita naformação da Associação de Dança do Recife (1984) cidade, que tinha na cooperativa sua principal forma de produção - assim como a introdução de aulas de dança contemporânea na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), nos idos de 1983, são alguns tópicos representativos da diversidade com que Zdenek inseminou e disseminou aspectos inovadores nas artes cênicas da cidade.


(Festival de dança do Recife, julho de 2004. Zdenek, Steven Harper e Adriana Salomão)
O professor Gualter Silva
Nascido em Minas Gerais, veio cedo para o Rio de Janeiro. Aos 14 anos, assumindo seu amor pela dança, resolveu ser dançarino. Autoditada, mas com muita dedicação e talento, foi contratado por um conjunto americano em 1936, os “Black Stars”, que ensinaram-lhe os segredos do sapateado. Fazia dupla com sua irmã Ina e dançava em cassinos: Urca, Quitandinha, Guarujá, Mar Del Plata, .... Participou de excursões para Portugal e Espanha. Durante a segunda guerra a dupla foi convidada para fazer shows para entreter os combatentes nas bases militares. Numa dessas ocasiões sapateou com ninguém menos que a Orquestra de Glenn Miller. Tomou parte em diversos filmes nacionais, entre eles Este mundo é um pandeiro, com Oscarito e Grande Otelo.
O professor Gualter lecionou em São Paulo, nas academias de René Gumiel, Yolanda Verdier, Cisne Negro, Stagium e Nice Leite. No interior, deu aulas em Bauru, Taubaté, Jundiaí, Ribeirão Preto e Araraquara.
Era uma pessoa humilde e simples, querido por seus muitos alunos. Seu legado continua hoje, tendo tido como “filhos artísticos” as professoras Kika Sampaio e Marchina, ambas donas de academias em São Paulo e responsáveis em grande parte pela popularização do sapateado no estado.
Foto: Gualter Silva e sua irmã Ina
PS: Agradeço a Leonice Borges Piovani, de Araraquara, SP, para o material que permitiu a redação desse artigo.
"O professor Gualter Silva trabalhou na Academia de ballet "Art Dance" em Araraquara (SP) sob a direção da professora Leonice Borges Piovani, de 1979 a 1988, 9 anos portanto, ministrando com muito amor e dedicação. Era, além de excelente profissional, um ser humano maravilhoso, humilde, carismático, que, saindo de Araraquara por motivo de mudança para o Rio de Janeiro, deixou um vazio e muita saudade. Uma de nossas salas de aula tem seu nome. "
Há mais de setenta anos (decada de 1930) se começava a praticar sapateado americano no Rio Grande do Sul. Nas comemorações do centenário da Revolução Farroupilha, vinte de setembro de 1935, um quinteto norte-americano de sapateadores foi convidado para se apresentar na inauguração do Cassino Farroupilha. Carlos Cunha, professor de danças de salão que julgava um concurso de tango na mesma ocasião, não se afastaria mais do sapateado. Nos camarins do cassino, Cunha conversou com os sapateadores que aceitaram ensinar sua técnica ao professor durante o tempo que ficaram em Porto Alegre. Um deles, Willie Thompson, permaneceu por mais tempo, criando com Carlos Cunha a primeira Escola de Sapateado de Porto Alegre.
Na década de quarenta Cunha e seus alunos como Astrogildo Jardim, Luis Borher e outros fizeram inúmeras apresentações pelos palcos dos Cine Teatros mais importantes do Estado.
Na década de setenta alguns amigos do filho de Carlos Cunha pedem para o sapateador Ihes dar aulas de sapateado. O professor, que na época não ensinava mais sapateado na sua escola , aceitou . Entre os rapazes estava João Cypriano Ávila , que pratica sapateado ainda nos dias de hoje.
Apesar do sapateado ter começado no estado antes do que se imagina, o trabalho dos pioneiros não teve seguidores.
Nas décadas de setenta e oitenta, surgiram outros sapateadores no Rio Grande do Sul, mas a maioria deles foi buscar conhecimentos ou aprimorar suas técnicas no exterior ou no eixo Rio-São Paulo. É o caso de Eugênia Kinller, Viviane Smanioto e Rosângela Pereira. Nos anos seguintes o sapateado ganharia novos adeptos, entre eles Heloisa Bertoli, Lourdes Dall'Onder e Claudete Ruschel.
Artigo escrito e fotos fornecidas por Glenda Duarte.
(Use sempre créditos se for reproduzir esse texto, em parte ou na sua totalidade).
"Curso de danças modernas e sapateado americano"
Direção dos professores Carlos Cunha e Willie Thompson
Carlos Cunha, Willie Thompson e ??
1929
"Willie Thompson, o melhor sapateador americano"
Cartaz do Cine-Teatro Ypiranga, 7 de dezembro de 1938
Detalhe: "...o professor Carlos Cunha e Ruy Bohrer, com seus sapateados"
Phillip Ascott, o primeiro sapateador brasileiro
Nos anos 40 e 50, os filmes musicais de Hollywood chegavam regularmente aos cinemas brasileiros e os geniais rodopios de Fred Astaire, Ginger Rodgers, Gene Kelly, Eleanor Powell e companhia deixaram profundas marcas sobre dançarinos locais. Não foram poucos os que saiam dos cinemas fascinados e determinados em reproduzir os passos vistos. Sem professores, o jeito era assistir aos filmes repetidamente e treinar na saída do cinema ou em casa até conseguir dominar os rudimentos da arte. Foi o caso de Gualter Silva e de Valderêdo de Santana, retratados numa próxima edição. Outros, vindos de fora, encontraram no Brasil uma terra de paz em meio a confusão da segunda guerra mundial, estabeleceram-se e passaram a ensinar o sapateado aqui. É o caso de Phillip Ascott.
Ascott aprendeu a sapatear com o pai, em Sidney, na Austrália. Fugindo da guerra, veio para o Brasil por volta de 1940 com sua mulher Nelly, também bailarina. Instalaram-se numa casinha humilde em Vila Carrão, na zona Leste de São Paulo e logo começaram a dar aulas de sapateado e de dança de salão na sala da casa. Com o dinheiro das aulas e algumas economias conseguiram levar uma vida modesta.
Ascott recrutava crianças pobres no bairro e gratuitamente ensinava à eles os primeiros passos de sapateado, o que o fazia feliz. A presença de muitas crianças ajudava o casal a superar a perda traumática do seu filho na fuga da Austrália. Ambos eram sempre bem humorados, com muita predisposição em prol da arte. Com o passar dos anos foi surgindo bons grupos de crianças, que dançavam em “festinhas” e outros eventos de todo tipo. Entre seus muitos alunos encontrava-se Roberto Talma, hoje diretor da programação na TV Globo. A alegria de todos era sapatear.
Ascott começou a ficar conhecido e respeitado com a vinda da televisão ao país. A TV Record entrou no ar com um programa infantil chamado Gincana Kibon, de caráter competitivo e agraciado com troféus e certificados, indo ao ar todos os domingo a tarde. Ascott e seus alunos eram freqüentemente convidados a participar do programa. Mais tarde participaram também regularmente do programa Jardim encantado da TV Tupi.
Autoditada, desconhecia qualquer formação “acadêmica” de dança, mas tinha um ouvido absoluto. Não dava nomes aos passos. Soltava música e saia dançando. Era muito criativo. Embora não temos registros filmados, seu estilo era provavelmente derivado do sapateado inglês (Lancashire Clog), meio folclórico, sem braços e com pés na meia ponta. Contava para seu alunos de sua participação em concursos na Austrália onde o único critério era a velocidade e a quantidade de sons produzidos.
A vida de Ascott era sapatear, saborear um bom uísque e curtir seus numerosos cães e gatos. Era descontraído e cômico, andava pelas calçadas com seu sapato de sapateado, chamando a atenção de todos com o “tec-tec” e quando abordado, sem o menor constrangimento dava um “showzinho”, em qualquer hora e lugar. Tinha alma de artista e era querido por todos. Com o tempo passou a dar aulas em clubes e era muito solicitado para ensinar artistas e famílias nobres de São Paulo. Deu aulas até seus últimos dias de vida e morreu em São Paulo aos 86 anos, pouco depois de Nelly.
Deixou como principal herdeiro artístico o professor Heloaldo Castello Silva, que mora atualmente em Piracicaba, interior de São Paulo, e está também empenhado em ensinar os segredos do sapateado para uma nova geração.
PS: Agradeço a Heloaldo Silva para o material que permitiu a redação desse artigo.
Foto: Phillip Ascott e Heloaldo Silva